Um olhar externo sobre o CNRE


Há muitos anos, não participava de uma reunião do Conselho Nacional de Representantes Estaduais (CNRE). Parte desse afastamento se deve ao meu distanciamento da estrutura sindical formal e, posteriormente, à dinâmica estadual de Minas Gerais, que restringe a participação da Delegacia Sindical de Belo Horizonte - um ponto que não cabe aprofundar aqui.
Nas últimas três reuniões do CNRE, tive a oportunidade de participar. Em duas delas, realizadas on line, participei como observadora, e da última, ocorrida no final de semana em Brasília, colhi relatos, vi alguns trechos com colegas que assistiram on line e li atas do evento.
A experiência dessas três reuniões, pode ser resumida em uma palavra: estarrecimento.
Quando o CNRE do Sindireceita foi criado, há mais de 20 anos, participei como representante de São Paulo. Após debates ricos e entusiasmados, decidiu-se pela criação de um Conselho Nacional composto principalmente por Delegados Sindicais. O objetivo era nobre: formar novas lideranças sindicais, criar um espaço privilegiado para o debate de ideias, defender e avançar os interesses da categoria, além de discutir a Receita Federal, sua estrutura e atuação no Estado Brasileiro.
O CNRE sempre esteve longe de ser um espaço de "comadres e compadres". Pelo contrário, foi palco de grandes debates, conflitos e até disputas - tudo o que é esperado, legítimo e desejável em grupos heterogêneos como o da nossa categoria. Enquanto as Assembleia Geral Nacional (AGN) e os Congressos geravam as grandes ideias estratégicas, o CNRE se dedicava a dar forma e efetividade a essas ideias, criando táticas para colocá-las em prática, usando as ferramentas disponíveis: políticas, jurídicas, tecnolôgicas…
No entanto, o que presenciei nas últimas três reuniões não guarda qualquer relação com o Conselho idealizado há mais de duas décadas. O presidente, que ocupa o cargo há 20 anos, tornou-se o "dono do pedaço". Gostaria de ter cronometrado o tempo que ele monopoliza durante o evento. Embora não o tenha feito, atrevo-me a estimar que ultrapassa 60%. A cada intervenção de um conselheiro, ele faz longas digressões, justifica cada atitude ou decisão da mesa e interrompe quase todas as falas dos conselheiros com pedidos de silêncio e atenção da plenária - cenas que remetem a uma sala de aula do ensino fundamental.
Alguns conselheiros, louváveis em suas tentativas de intervir com questões pertinentes, esforçam-se para encadear uma fala lógica nos 2 ou 3 minutos que lhes são concedidos. Contudo, frequentemente são interrompidos mais de uma vez pelas reprimendas do "professor" à "turma".
Estimo que outros 30% do tempo sejam ocupados por diretores e presidentes da Diretoria Executiva Nacional. A cada intervenção de um conselheiro, surge um diretor nacional para explicar, pedir esclarecimentos, informar ou, em alguns casos, insultar. Sim, tive a inacreditável experiência de ouvir o Diretor Jurídico referir-se às falas do Presidente do CEDS-SC e do Delegado Sindical de Rondônia como "não inteligentes". Detalhe: o Presidente do CEDS-SC tem um extenso currículo como especialista em Direito Constitucional, enquanto o colega de Rondônia, já aposentado, é um respeitado jurista.
Não sei precisar o custo de uma reunião do CNRE (pretendo consultar a prestação de contas para obter essa informação), mas certamente não é baixo. São realizadas duas reuniões ordinárias presenciais por ano, em Brasília, normalmente com a participação de mais de 100 pessoas, durante 4 ou 5 dias.
A representatividade das bases é precária, já que a maioria das Delegacias Sindicais não estão lá representadas. Temos 77 Delegacias Sindicais. Os 36 Conselheiros que compõem atualmente o CNRE representam menos do que 36 DSs, já que algumas enviam mais de 1 representante, pois as regras estatutárias permitem essa distorção. Além disso, nessa última reunião, por exemplo, 6 conselheiros eram diretores da DEN, agravando a precariedade da representação da base nesse fórum.
Feitas essas observações, ainda sob o impacto dos fatos, atrevo-me a um diagnóstico inicial, que submeto aos Analistas para debate: essa instância sindical fracassou. Consome energia, tempo e recursos financeiros, sem oferecer qualquer retorno. Nada.
Solução?
O primeiro passo é ter a coragem de admitir que fracassamos no formato desse fórum tão importante. Ele se tornou uma instância fechada em si mesma, sem representatividade, estéril nos debates, cara e incapaz de dar respostas às demandas da categoria. Mas seus objetivos iniciais ainda são atuais e necessários, portanto sua essência precisa ser preservada, como espaço de formação de lideranças e produção de alternativas.
Aproveitando que 2025 é ano de eleições no Sindireceita, é desejável que as discussões, nesse momento em que nossa atenção estará voltada para o sindicato, sua gestão e os novos dirigentes também se ocupem de repensar o Conselho Nacional de Representantes Estaduais (CNRE). É imprescindível.
Mari Lucia Baldissarelli Zonta
Delegacia Sindical de Belo Horizonte




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